[Italiano]
Autoritratto
Da piccola la mia unica ambizione significativa, oltre a ritornare alla mia terra, era imparare a leggere e scrivere.
Sono stata fortunata di poter avere accesso a scaffali ben forniti, anche se ad un certo punto il mio interesse per la medicina legale e psichiatria ha provocato qualche preoccupazioni ai miei.
Non posso fare a meno di scrivere, poiché sono scelta dai personaggi che non mi danno pace fino a quando non registro quello che vogliono, indifferenti alle tendiniti o alle scuse della mia pigrizia. Ai più preoccupati: sì, mi rendo conto che non dovrei rivelare queste informazioni al primo psichiatra che trovo, a meno che non voglia prendere degli anti-psicotici.
Fedele alla mia abituale difficoltà con la linea del tempo, spesso confondo le storie che mi sussurrano, provocando l’ira dei miei personaggi. Come Mauro ha scritto in modo tanto bello in Dammi un bacio, credo che io sappia solo andare contromano. Non potrei scrivere la mia storia amorosa, perchè mi sa che esistono già troppi autori di sceneggiature per le telenovelas messicane e non vorrei rubare il lavoro a nessuno. Se Almodovar insistesse molto, potrei considerare l’ipotesi di concedergli qualche piccolo dettaglio.
Il possibile debole talento è alleviato dalla fortuna di avere una famiglia pazza, quindi non ho bisogno di inventare personaggi bizzarri. Lo svantaggio (o no) è che ormai diversi parenti miei non mi parlano più.
Nata in Africa, cresciuta in Portogallo, pensando in due lingue e eternamente grata per tutto di bello che la lusofonia ha da offrire alla mia anima.
Ogni lingua è una convenzione prodotta in modo a tradurre pensieri e sentimenti. Ma se è vero che i sentimenti sono universali, come spiegare, allora, che io possa pensare che la lingua definisce pure il modo di pensare e sentire? Sarà forse una contraddizione, e comunque questa sensazione è come un amante tenace e non mi abbandona. Una portoghese abitando negli Stati Uniti provava una immensa difficoltà cercando di spiegare ad un suo amico nord americano quanto gli mancava (e poi qui non riusciva nemmeno a usare la parola miss, era forzata a dire che provava saudades) l’odore del mare. Per il suo amico, era un sentimento pazzesco, visto che l’odore di mare, per lui, era brutto, era l’odore di pesci e alghe moribondi. Per lei, però, era la maresia , com’è per tutti i lusofoni. E mai la maresia potrebbe, per un lusofono, essere brutta. Pura eresia.
È sottile la linea fra la traduzione e il tradimento.
Tradurre Mauro Gasparini è stato un piacere e un pò meno traditrice mi sono sentita per la prossimità fra le lingue. I suoi racconti sono molto belli, dunque ho sentito una grande responsabilità in far conoscere le sue parole ai lettori di portoghese. Ringrazio la mia amica Quel, che mi ha dato un aiuto prezioso nella revisione di questo piacevole lavoro.
i miei blog sono:
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[Português]
Autoritratto
Em pequena a minha única ambição significante, além de regressar à minha terra, era aprender a ler e escrever. Tive a fortuna de poder ter tido acesso a estantes bem recheadas, ainda que a certo ponto o meu interesse por medicina legal e psiquiatria tenha causado preocupações a meus pais.
Não escrevo por desejar fazê-lo, mas por não me restar outra saída, escolhida que sou por personagens que não me dão paz até que registe o que elas muito bem entendem, indiferentes que são a tendinites ou desculpas da minha preguiça. Para os mais preocupados, sim, estou ciente que não devo revelar estas informações ao primeiro psiquiatra com que me encontre, a menos que deseje tomar anti-psicóticos.
Fiel à minha habitual dificuldade com a linha temporal, frequentemente confundo as histórias que me são sussurradas, provocando a ira de minhas personagens e, seguindo o que Mauro tão bem descreve em Me dê um beijo, creio que só sei “andar em contramão”. Não poderei escrever a minha vida amorosa, pois consta-me que já existem muitos argumentistas de telenovelas mexicanas e não gostaria de roubar o trabalho a nenhum deles. Se Almodovar insistir muito, posso conceder-lhe um ou outro detalhe.
O eventual pouco talento é mitigado pela sorte de ter uma família de loucos, e assim não ter necessidade de inventar personagens bizarras. A desvantagem ( ou não) é que actualmente diversos parentes não falam mais comigo.
Nascida em África, criada em Portugal, pensando em duas línguas e eternamente grata pelo milagre da lusofonia com tudo o que este tem para ofertar à minha alma.
Cada língua é uma convenção produzida de modo a traduzir pensamentos e sentimentos. Mas se é verdade que os sentimentos são universais, como explicar que eu creia que a língua define também o modo de pensar e sentir? Não faço ideia, será uma contradição, mas esta sensação é como um amante tenaz que não me abandona.
Uma portuguesa que vivia nos estados Unidos sentia uma imensa dificuldade tentando explicar ao seu amigo norte-americano quanta falta lhe fazia (e aqui não conseguia sequer usar a palavra miss, sentia-se forçada a dizer que sentia saudades) o odor do mar, a maresia. Para o seu amigo era um sentimento louco, uma vez que o odor do mar, para ele, era terrível, era odor a peixe e algas moribundos. Para ela, porém, era a maresia, tal como seria para qualquer lusófono. E jamais para um lusófono a maresia poderia ser algo feio. Pura heresia.
É subtil a linha entre a tradução e a traição.
Traduzir Mauro Gasparini foi um imenso prazer, e me senti um pouco menos traidora, dada a proximidade das línguas. Os seus contos são muito belos, pelo que senti grande responsabilidade em dar a conhecer a leitores de português as suas palavras. Nesta prazeirosa tarefa, deixo o meu bem-haja à minha amiga Quel, que me concedeu preciosa ajuda na revisão do meu trabalho.
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